A medicina está passando por rápidas transformações em todo o mundo, nesse final de século. Uma delas é o dramático progresso verificado na disseminação de informação e nas tecnologias de comunicação através da Internet e das redes de computadores. No entanto, o que é possível atualmente ainda está muito longe do que nos espera no futuro!

Neste artigo, vamos consultar a nossa bola de cristal e procurar descrever, em linguagem a menos técnica possível, o que as tecnologias da informação poderão contribuir para a medicina nos próximos anos. Para que você possa se aprofundar nos temas pelos quais se interessar mais, damos uma bibliografia básica ao final, assim como os endereços de sites na Internet e artigos onde o assunto é apresentado mais extensamente.

O Registro Médico Eletrônico

Muitos hospitais estão começando a converter os prontuários de seus pacientes para o formato eletrônico. Nos EUA, a principal motivação para isso tem sido as exigências legais (certificação de hospitais pelo governo e problemas com ações movidas por má-prática médica) e econômicas, mas existe uma preocupação crescente com a qualidade da informação disponível sobre os pacientes, a qual tem consequências imediatas sobre a qualidade da assistência médica prestada. Todos conhecem os enormes problemas causados pelo ineficiente e arcaico sistema de arquivamento médico em papel, que vão desde a tradicional ilegibilidade das anotações médicas, até a perda de informações ou a dificuldade de achar qualquer coisa. O registro médico eletrônico unificado tem muitas vantagens em relação ao de papel, ao facilitar enormemente .as funções de busca, recuperação e análise de dados clínicos. A forma mais comum, usada em muitos consultórios médicos, é a organizar a informação no computador na forma de fichas específicas para cada área ou tipo de exame ou resultado.

Existem também registros médicos multimídia, ou seja, que podem incorporar versões digitais de imagens médicas, sons, sinais fisiológicos, etc. Várias instituições estão fazendo experimentos com a disponibilização dessas informações através da Internet, usando a interface bem conhecida da World Wide Web (WWW), de fácil aprendizado e utilização. Bons exemplos de projetos nesta área são o Artemis, da NLM, e o W3-EMRS e Infomed, dos EUA. Se acoplarmos as tecnologias da Inteligência Artificial (campo da Informática que desenvolve sistemas capazes de raciocinar de forma semelhante ao ser humano) aos bancos de dados clínicos, os médicos e enfermeiros podem utilizá-lo para tomar decisões baseadas na situação particular de um paciente, por exemplo, para selecionar o melhor antibiótico. Um sistema desse tipo, denominado HELP, já está em operação há vários anos no Hospital dos Santos dos Últimos Dias, em Salt Lake City, e é comercializado por uma empresa americana. Quando o médico solicita ao computador para recuperar o prontuário eletrônico de um paciente, o sistema efetua automaticamente uma série de tarefas, podendo inclusive imprimir lembretes para o médico (ex., `está na hora de pedir uma mamografia anual para esta paciente"), auxiliar no diagnóstico (ex. "os sintomas e sinais são indicativos de tuberculose pulmonar, com uma probabilidade de 87 %") ou recomendar uma conduta (ex., "o melhor antibiótico para tratar essa bacteremia são a penicilina G potássica intravenosa"). Comprovadamente, este sistema já economizou milhões de dólares em custos de medicamentos, ao mesmo tempo diminuindo a mortalidade e a duração da estadia hospitalar, tudo isso apenas ao colocar os computadores à disposição dos médicos e melhorar o acesso à informação. Os médicos gostam do sistema, porque ele dá uma maior segurança no diagnóstico e na conduta, e os torna mais eficientes e atentos aos problemas passados e atuais dos seus pacientes.

Pesquisa Clínica

Os ensaios clínicos são hoje a pedra sobre a qual se fundamenta a prática clínica baseada em evidências. No entanto, é extremamente demorado e trabalhoso coletar informações disponíveis nos prontuários clínicos em papel, quando necessitamos realizar um levantamento. Com todos os registros médicos no computador, esta tarefa se torna muito mais fácil, podendo-se obter listagens de resultados em poucos minutos, bem como analisá-las estatisticamente com softwares adequados para uso pelo meio médico. O controle de qualidade (auditoria) da assistência médica também é muito facilitado pela existência do registro eletrônico. Uma outra aplicação interessante da Informática nessa área ocorre nos estudos clínicos multicêntricos. A Internet já está sendo utilizada para efetuar a comunicação entre os centros, a coleta decentralizada de dados através de formulários "inteligentes" disponíveis na Internet, bem como a distribuição dos resultados das análises aos colaboradores do estudo. No futuro, será comum a cooperação internacional entre grupos de pesquisa médica situados em diferentes lugares.

Prontuários Médicos de Bolso

Os cartões inteligentes ( "smart cards") são do tamanho de um cartão de crédito, mas podem armazenar até 1.000 páginas de informação. Muitos modelos já estão disponíveis no mercado, e podem ser de dois tipos: cartões que contém um "chip" (circuito integrado miniaturizado, embutido no cartão) e de laser (que usam uma tecnologia semelhante ao do CD-ROM). Os cartões de menor capacidade contêm um conjunto mínimo de dados sobre o paciente (MDS - Minimal Data Set), tais como dados pessoais e civis, diagnósticos principais, alergias, tipo sanguíneo, dados do plano de saúde, etc. Os cartões de maior capacidade podem conter um prontuário completo, inclusive todas as imagens médicas digitalizadas, resultados de exames, etc. O cartão pode ser lido e também gravado usando-se um periférico especial ligado ao computador do médico ou do hospital. Tem ainda a grande vantagem de centralizar todas as informações médicas sobre um paciente em um único lugar (você já pensou em quantos hospitais e consultórios estão espalhados os seus dados médicos? Imagine só a economia e eficiência conseguidas com um prontuário único).

Uma Linguagem Comum

Se o registro médico eletrônico tem tantas vantagens, porque ele não é mais amplamente utilizado? Existem vários obstáculos em seu caminho. O principal deles é de natureza humana: para substituir inteiramente o papel pelo computador é preciso ocorrer uma verdadeira revolução cultural no ambiente profissional e na cabeça dos médicos e enfermeiros, que devem passar a ser usuários diretos do computador e responsáveis pela informação que será colocada maciçamente lá dentro. A outra dificuldade é a necessidade de usar uma linguagem padronizada, que permita a codificação de todos os aspectos do registro médico. A Classificação Internacional de Doenças (CID) já é bem conhecida e utilizada, bem como a codificação dos procedimentos médicos (no Brasil, pela lista da AMB), mas esses sistemas são ilógicos, difíceis de usar no dia-a-dia e não cobrem completamente a nomenclatura médica. Por isso têm surgido sistemas nos EUA e na Comunidade Europeia com o intuito de informatizar completamente a linguagem da Medicina, através de padrões como o UMLS (Unified Medical Language System), elaborado pela National Library of Medicine e o SNOMED (Standard Nomenclature of Medicine), por um comitê de experts internacionais. Finalmente, um componente importante de todo sistema médico hoje em dia é a capacidade que ele tem de se comunicar automaticamente com outros softwares de automação de hospital, laboratório, consultório, etc. Geralmente as diferentes empresas e instituições desenvolvem os seus próprios sistemas, ou compram sistemas incompatíveis entre si no mercado, e eles não se comunicam, dificultando enormemente a formação de redes de saúde, o prontuário unificado e os pagamentos de serviços. Por isso, está em andamento um esforço grande de conseguir uma linguagem comum entre os sistemas. A mais aceita internacionalmente é o HL-7 (que significa Health Level 7, pois o sétimo nível da arquitetura de uma rede de computadores é o correspondente ao nível de aplicação, segundo o padrão internacional ISO).

Radiografia Digital

O uso de computadores para adquirir, armazenar e processar radiografias já está começando a se tornar comum em muitos lugares. Esses sistemas, denominados de PACS (Picture Archiving and Communication Systems, ou Sistemas de Arquivamento e Comunicação de Imagens) estão sendo implementados em hospitais em todo o mundo, à uma velocidade astronômica. Uma tendência recente, muito interessante consiste na integração com o registro médico através de visualizadores da WWW ("browsers", como o Netscape ou Internet Explorer) às estações de trabalho com imagens usadas pelos médicos no hospital, de modo a permitir a exibição das imagens captadas no serviço de Radiodiagnóstico. Através de uma rede dedicada (própria do hospital, interligada por cabos óticos de alta velocidade), é possível montar uma intranet de alto desempenho. No futuro, com o aumento da velocidade de acesso à Internet, será possível visualizar essas imagens em qualquer lugar do mundo. Quando isso acontecer, um radiologista no Canadá, por exemplo, poderá ver e dar o diagnóstico para uma chapa ou tomografia tomada no pronto-socorro de uma cidade na Flórida. A telemedicina poderá ser utilizada até nos confins mais distantes do meio rural, o que está causando uma verdadeira revolução na especialidade. E um dos principais responsáveis por isso é a adoção de padrões mundiais de comunicação digital para imagens médicas, como o DICOM.

DICOM

Em 1985, duas organizações norte-americanas, um da área médica (American College of Radiology) e outro da área de equipamentos médicos (National Electrical Manufacturers Association) desenvolveram conjuntamente um padrão para o intercâmbio eletrônico de imagens que não dependesse do tipo de computador onde residem os dados. Esse padrão recebeu o nome de ACR-NEMA, e foi o primeiro a ser adotado pelos fabricantes de aparelhos geradores de imagens radiológicas, permitindo assim uma conexão mais fácil a computadores de uso geral. Posteriormente foi criado, a partir dele, outro padrão, o DICOM (Digital and Communications in Medicine), o qual foi adotado muito mais amplamente, e que governa também as informações de texto (nome, número de registro do paciente, laudo radiológico, etc.). Usando-se um único comando FIND (procurar), o DICOM permite que o médico recupere o registro completo de imagem médica de um determinado paciente. O DICOM define não somente como a imagem é representada digitalmente dentro do computador (formato de imagem), bem como ele deve ser arquivado. São enormes os benefícios trazidos por sistemas desse tipo, pois os programadores de software podem simplesmente incorporar o padrão em seus programas, ao invés de ter que desenvolver um novo programa a partir do zero. Além disso, eles não precisam se preocupar com as diferenças entre os vários modelos de aparelhos de raios X, tomografia, ultrassom, medicina nuclear, etc., ou com os computadores onde rodam os seus programas. Várias organizações, como o American College of Cardiology e o American College of Pathology estão adotando o DICOM como padrão. Isso fará com que um largo espectro de imagens médicas seja padronizado e disponíveis através de alguns comandos simples. Existem vários sites na Internet onde você pode achar software gratuito que "entende" o DICOM e pode visualizar imagens geradas segundo o padrão

Medicina Virtual

Será que um dia a realidade virtual poderá ser usada em um ambiente médico? Imagine estudantes de medicina usando um capacete com visores tridimensionais para examinar uma versão virtual do corpo humano. Ou que você seja capaz de andar de sala em sala de um congresso virtual, sem precisar sair de sua cidade? Tudo isso já é tecnicamente possível, se as conexões forem suficientemente rápidas. Imagine só você de pé num palco virtual, apresentando um trabalho para uma audiência mundial composta de milhares de colegas, sem sair do seu consultório! Avanços tecnológicos futuros, como na área de holografia tridimensional dispensarão até mesmo o uso de capacetes e visores especializados. Isso não é ficção científica, é o próximo passo no campo da realidade virtual, que avança a passos céleres para se encontrar com a medicina. Há vários anos se realiza na costa oeste dos EUA um congresso chamado "Virtual Reality Meets Medicine" onde espantosas aplicações são relatadas rotineiramente. Uma das aplicações mais interessantes é o da cirurgia virtual, desenvolvido pela NASA, e que utiliza uma tecnologia chamada "tele presença". Um médico, usando o visualizador tridimensional, pode enxergar perfeitamente o campo cirúrgico localizado a milhares de quilômetros de distância. Usando manipuladores especiais (semelhantes aos de videoendoscopia), ele pode comandar motores e pinças eletromecânicas à distância, cortando, agarrando e suturando. O mesmo tipo de aplicação pode ser visto já em produtos comerciais para o treinamento de cirurgias videoendoscópicas. Outro campo da informática médica que parece ser muito futurista, mas que já está sendo desenvolvido em muitos países se denomina robótica médica, e consiste na aplicação dos robôs mecânicos em cirurgias. Na França, por exemplo, está sendo utilizado um robô programável para montagens industriais, que é 100 vezes mais preciso e seguro que a mão humana em tarefas delicadas de posicionamento. Ele usado para inserir uma sonda de biópsia ou congelamento de estruturas cerebrais profundas, através da neurocirurgia funcional estereotáxica. Existem também robôs para cirurgias de coluna vertebral e de próteses de quadril, nos EUA, que demonstraram diversas vantagens no ato cirúrgico.

O Ciberespaço Médico

Através da Internet, começa a se esboçar a formação de uma nova estrutura de interação entre pessoas e máquinas, o ciberespaço médico. Uma "comunidade médica virtual" não é impossível, como o demonstram diversos projetos como o Hospital Virtual, as listas de discussão, o maior uso do correio eletrônico, a World Wide Web (WWW), etc. Atualmente, a conectividade existente em nível mundial permite que recursos de informação médica sejam compartilhados. Por exemplo, existe um banco mundial de doadores de medula óssea, para fins de transplante, que pode ser consultado através da WWW. O arquivo contém cerca de 2,3 milhões de doadores de vários países. Este é um exemplo de como a disseminação eletrônica de informações pode salvar a vida de muitos pacientes.
Outro exemplo significante é o do MEDLINE, a gigantesca base de dados bibliográficos elaborada e mantida pela Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA, que atualmente está disponível para consulta gratuitamente através da Internet, pelo sistema PubMed. Ela tem 9 milhões de referências bibliográficas, com resumos, desde 1970, e seu valor para o progresso do conhecimento médico, para o acesso à informação cientifica para fins educacionais e assistenciais é simplesmente assombroso, principalmente neste final de século, em que o volume de informação médica cresce exponencialmente. Para tornar a situação mais complexa, muitos sites da Internet se dedicam a publicar informações médicas, como o MedScape, o HealthGate e a HighWire Press, e, no Brasil, o grupo e*pub da UNICAMP.

O futuro nos trará, sem dúvida, um verdadeiro dilúvio de informações digitais, através de antenas parabólicas, satélites, TV a cabo, Internet e linhas telefônicas comuns e celulares. A educação médica mudará tremendamente, habilitando a todos os médicos a compartilharem seus recursos de informação em torno do globo terrestre. A diferença entre vida ou morte poderá ficar dependente desses breves pulsos de eletricidade e luz através das supervias eletrônicas da informação. No contexto médico, a informatização é um negócio muito sério e importante. No próximo milênio, o computador e as redes de comunicação serão uma parte integrante de sua vida profissional, tanto quanto o estetoscópio.

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